João Pessoa, -  

  

 

ESPIRITUALIDADE TERESIANA

Antes de iniciarmos algo sobre a espiritualidade teresiana, se faz necessário uma definição mais próxima do que é espiritualidade numa visão cristã dentro da atualidade de hoje.

Depois que Cristo subiu aos céus, já se sabia que o Espírito Santo iria vir para transformar os corações dos Apóstolos. Todos estavam ansiosos pela manifestação do Paráclito. A narração do texto dos Atos (Cap. 2), nos apresenta uma transformação dos discípulos de Jesus. Eles estavam com "medo" e de repente se tornaram novas pessoas com uma capacidade desconhecida. De pessoas isoladas em seu mundo particular, se tornaram homens universais. Por esta razão, podemos afirmar que a experiência de Deus é sempre transformante. Quem experimenta Deus recebe uma força especial que faz que "passe a amar de verdade a partir do sentimento de sentir-se amado".

Poderíamos definir espiritualidade cristã como tomada de consciência do amor de Deus por nós. Relação profunda entre Criador e criatura. Há três fatos de maior relevo no cristianismo que são: A Encarnação (Cristo faz parte de nossa vida), A Ressurreição (Cristo vence a morte) e Pentecostes (o Espírito Santo vem e nos ensina a amar). Com estas três realidades, os primeiros cristãos criaram a certeza de que Deus não está longe e que suas existências tinham um sentido profundo.

A partir da experiência apostólica, podemos afirmar que espiritualidade é todo o esforço que fizemos para permitir que Deus nos ame. Inicialmente, parece ser algo fácil, mas este esforço é um desafio para toda vida. Na realidade o protagonista da vida espiritual não somos nós, mas a graça de Deus.

A espiritualidade teresiana é algo espetacular e inédito. Precisamos entrar em nós mesmos e perceber a comunicação que temos direta com Deus. As pessoas do mundo moderno são massacradas pelo imediatismo, não podendo nunca se conhecer de verdade. Precisamos nos enxergar como Deus nos enxerga.

No período que viveu Santa Teresa, havia uma inflação de espiritualidade, isto provocava uma grande confusão na questão de como acontece o nosso verdadeiro relacionamento com Deus. Ela procurou informações do que lhe sucedia com muitos livros e com os especialistas de seu tempo. Começou a valorizar a oração de recolhimento, onde todas as coisas são como que silenciadas para se perceber Deus em nosso interior.

O ponto chave na vida de Teresa foi, sem dúvida alguma, a oração, que foi definida por ela no livro da Vida capítulo 8 nº 5: "oração mental, a meu parecer, é um trato de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama". Santa Teresa considera sua relação com Deus uma amizade. Quando somos amigos de alguém, vamos aos poucos, nos transformando de acordo com aquele que amamos.

Santa Teresa foi muitas vezes tentada a se afastar da oração por um falso orgulho ou por falsa humildade (V 7, 1). Ela nos ensina que devemos perseverar sempre na oração, independente de nossos sentimentos. Jamais podemos abandonar a oração, pois ela é o meio eficaz para nossa transformação.

"Converter-se é voltar a oração". Não importa nossa situação moral diante de Deus, devemos nos colocar com toda humildade e pedir que Ele nos transforme. A verdadeira amizade exige gratuidade. Hoje queremos negociar com Deus, por esta razão logo desistimos da oração.

A oração não é uma prática isolada, mas sim consequência de toda uma vivência cristã. A vida é o termômetro da oração que existe ou falta na vida do cristão. "Crer é um constitutivo do homem", eu preciso crer nos sinais do amor de Deus em minha vida, para aumentar o meu relacionamento de amizade com Ele. O Ato de Oração tem como função realizar a presença, é uma exigência intrínseca da amizade, não é questão jurídica.

"De acordo com teu amor, se fará presente a pessoa amiga". O Ato de Oração, ou de presença, vem de acordo com o amor que busca presença. A oração é antes de tudo, uma forma de ser do que algo para se fazer. A prática daquilo que rezamos vem como consequência do estilo de oração que temos.

"O que nos obriga amar é a consciência do amor". Teresa nos ensina que todos somos dotados pelo amor de Deus. Saber-se amado é a força dinamizadora. Oração é afetividade (deixar-se afetar), integral com aquele que nos ama, é uma forma de ser livre e consciente. A oração é sobrenatural porque Deus é que atua (1M 2, 7). A distração na oração não é falta, mas sim fruto de nossa debilidade, a oração mais mal feita é a que não fazemos.

Tudo que Santa Teresa nos ensina tem base na sua experiência. Por esta razão ela era amiga da verdade e nos deixou como herança tudo que teve que enfrentar parta alcançar a união com Deus e percebê-lo em seu interior.

Muitas vezes imaginamos que a espiritualidade é algo fora da vida. Santa Teresa foi marcada por várias amizades humanas, que foram, aos poucos, sendo transformadas em amizade com aquele que merece toda a nossa atenção. Se nossa relação com Deus é de amizade, ela deve ser sustentada pelo diálogo. A novidade teresiana vai por esta linha: começo a viver a vida do amigo, me interesso por tudo aquilo que faz parte de sua vida. O meu amor particularizado (manchado pelo egoísmo), passa a se tornar universal.

Todos escritos de Santa Teresa são consequência de seu relacionamento com Deus, com a busca da verdade última, por esta razão, ela teve que se vencer, se enfrentar várias vezes. A vida espiritual não é alienação, mas compromisso com a realidade, é transformação pessoal que se expande para fora.

O encontro com a nossa verdade faz-nos sofrer, assim como esta saída de nós mesmos, isto exige de nossa parte uma profunda experiência de perdão e aceitação da misericórdia de Deus.

A oração transformante, nem sempre é gostosa como muitos cristãos hoje querem que seja. A contemplação é uma exigência de transformação que sempre trás consigo dor e sofrimento. A partir desta realidade que Santa Teresa nos fala da necessidade de uma determinada determinação para nunca deixar de lado a tentativa de progredir na vida espiritual. Muitas pessoas se afastam da oração porque se baseiam demais nos sentimentos que ela produz.

Os fatos sobrenaturais na vida de Teresa devem ser analisados no aspecto dinâmico do amor que ela sentiu e transformou sua vida. Vamos nos transformando naquilo que amamos.

O desafio teresiano para nós hoje é fundamental. Qual é o tempo que estou dedicando ao diálogo com Deus. Como estou vivendo o carisma teresiano (vida de oração e comunidade), dentro da realidade que vivo?

"A perfeição na oração não está no pensar muito, senão no amar muito" (4M 1, 7).

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