João Pessoa, -  

  

 

O SILÊNCIO

F.O.S.C.S.F.

Silêncio não significa só exclusão de palavras e não pode ser considerado somente no seu aspecto negativo. Silêncio não é um estado de esquecimento, de vazio, de “nada”; ao contrário, o silêncio ao qual buscamos viver em nossa Fraternidade distingue-se pelo seu caráter positivo, é uma linguagem que transborda de uma presença impregnada de vida, de solicitude, de oblação.

O silêncio a que aludimos, “faz falar pouco para ouvir muito”. A necessidade de se derramar em palavras inúteis vai diminuindo progressivamente, porque existe uma vida interior cada vez mais intensa, que se vai impregnando da pura atenção ao OUTRO que é Deus...É o silencio do egoísmo, das susceptibilidades, das vontades e dos caprichos. Este silêncio é o comportamento indispensável para escutar Deus e para acolher a sua comunicação, é a atmosfera VITAL da Oração, da Salmodia e de todo Culto Divino.

Este silêncio é progressivo, amassado primeiramente em muito domínio, quer da língua, quer da imaginação e da memória. É deixar-se avassalar por uma Presença que não é outra senão Deus e daqui radica o silencio do coração.

A necessidade e o valor do silêncio da língua – que é o mais elementar - encontram na Sagrada Escritura um precioso testemunho. Nas suas numerosas passagens recomendam:

No Novo Testamento, o texto mais significativo do silêncio ascético é o de S. Tiago 3,1-10 sobre o domínio da língua. Também Jesus condena as palavras que, procedendo de um coração mau, malicioso.. saem pela boca Mt. 15;19; cf. 5;22 e põe de sobreaviso contra as palavras sem fundamento que constituirão matéria de juízo – Mt. 12; 36.

Jesus, ao calar-se diante de Pilatos, eleva o silêncio a uma virtude heróica. Ele recorda com os seus ensinamentos a importância do silêncio. Retira-se para lugares desérticos e silenciosos para passar a “noite em oração” Lc. 6;12 – cf 22;39. O NT apresenta também como modelos de silêncio a MARIA Lc. 2; 19-51 / JOSÉ Mt. 1;10, João Baptista...

O silêncio da palavra e das manifestações exigentes (violentas) do egoísmo dá passo ao silencio interior. Segundo a Patrística citaremos apenas alguns padres da Igreja a saber:

S. Gregório de Nazianzo recorda o “ deserto como fonte de progresso para Deus, de Vida Divina” e chama ao Louvor a “ filha do Silêncio”.

S. Basílio recorda o valor purificador e a vantagem da “solidão silenciosa” para o encontro com Deus

S. João Clímaco insere o silêncio na “escala de perfeição” (10º, 11º e 12º)

S. Ambrósio fala da “taciturnidade como remédio da alma” e compara a “quem fala muito com uma vasilha furada incapaz de conservar os segredos do Rei”

Stº Agostinho fala da “alegria de escutar silenciosamente”

Na tradição Monástica o costume de retirar-se para o deserto para escutar Deus, praticado pelos primeiros eremitas e monges, já remonta aos tempos de Moisés, Elias e os demais profetas Tanto na vida eremítica como na vida cenobítica e vidas mistas, o silêncio é um elemento fundamental para se criar um clima de atenção a Deus.

Na vida cenobítica, desde os primeiros séculos, o silêncio aparece como PRECEITO DE PERFEIÇÃO, moralmente indispensável. Cassiano prescreve observar o silêncio rigoroso durante a noite, à mesa, no Coro e em todo o tempo que se emprega a cantar o Ofício Divino.

No nosso tempo temos exemplos luminosos de uma atração particular pelo silêncio: Santa Teresinha do Menino Jesus, Charles de F, mas principalmente a Beata Isabel da Trindade, que é chamada também a “Santa do Silêncio”, que sentiu em si a missão de atrair as almas ao silêncio e ao recolhimento interior.

Divisão do silêncio

Os Padres do deserto falam muitas vezes no silêncio como tarefa pessoal que nos conduz a uma verdadeira mudança do coração. O silêncio leva-nos a uma experiência de desprendimento de nós mesmos, porque o silêncio não é só estar calado...

SILENCIO EXTERIOR:

No fundo, não é mais do que a condição ambiental (exterior) do silêncio interior; este silêncio exterior é necessário, como é também o recolhimento e a solidão, mesmo sabendo que nem sempre é possível e, por outro lado, é insuficiente em si mesmo para o pleno desenvolvimento da vida espiritual

a) Silêncio da palavra : Falar pouco com as criaturas e muito com Deus. A palavra exterioriza pensamentos e sentimentos, esvaziando a alma do que lhe é mais íntimo e pessoal, e, quando a quantidade de palavras é elevada – o que supõe sempre palavras inúteis – tornam-na superficial e enfraquecem a sua capacidade de aperfeiçoamento.

Para evitar as palavras inúteis, pois elas são sempre indício de superficialidade – aconselha-se o uso de sinais convencionais. Recomenda-se, além disso, vigiar o tom de voz e servir-se, com calma, da palavra. Um meio ótimo de auto-controle é o exame quotidiano, perguntando-se: quantas vezes falei, durante quanto tempo, qual o motivo que me levou a falar e com que intenção o fiz, etc. É escusado dizer que, se não houve verdadeira necessidade para tomar a palavra e usá-la, provavelmente pronunciei palavras inúteis que me tornaram superficial.

b) Silêncio no trabalho e nos movimentos: Há que evitar uma atividade demasiado ruidosa, principalmente quando depende de nós o muito ou o pouco ruído, (os movimentos agitados, estrépitos), assim como uma atividade agitada ou exagerada, porque perturba a paz da alma, fazendo-a perder a sensibilidade no contacto com Deus e tornando-a incapaz para escutar a Sua Voz.

O barulho, a agitação, a velocidade de movimentos, as correrias, fazem-nos entrar num círculo frenético e vicioso do chamado “ativismo”, onde o ser humano se deixa enrolar pela atividade impedindo a ação de Deus.

SILÊNCIO INTERIOR:

O silêncio interior, como se depreende da palavra que o classifica, é aquele que diz respeito ao nosso mundo interior, íntimo, que pode ser ajudado, só minimamente, pelo silêncio exterior. Apesar daquele não poder, de modo algum depender deste, acontece muitas vezes que se desencadeia o crescimento do silêncio Interior a partir do exterior, porque o exterior criou um certo ambiente que propiciou a atração da alma para o interior Mas prestemos atenção ao reino interior, que há que pacificar e silenciar:

a) Silêncio da Imaginação e da memória: Enquanto o ser humano tem poder para “implantar” o silêncio nos seus movimentos exteriores, nos ruídos que a sua atividade pode suscitar, aqui, no ‘reino interior, tem pouco poder. É todo um mundo em que só à força de paciência, perseverança e constantes esforços, poderá conseguir alguma coisa. À partida, temos de saber que o verdadeiro silêncio só pode ser outorgado por Deus, e normalmente isto acontece só depois de muitos esforços da nossa parte. Ele é um dom para a Contemplação.

O encontro com Deus exige a exclusão das dissipações da atividade interior, exercendo sobre a mesma um controle efetivo. O homem, em primeiro lugar, tem de criar o ‘vazio’ nas suas ‘potências’ interiores desocupar a alma de uma forma muito ativa, esforçar-se constantemente por dominar – quanto dele possa depender - pensamentos, desejos...que normalmente se vão fixar naquilo que ama ou teme. É o “desocupar o Palácio da alma” de Santa Teresa de Jesus, nossa Santa Madre de recordações interiores que perturbam a paz, empregando todas as suas forças para entrar no recolhimento ativo.

Todo este trabalho de ‘silenciamento’ das nossas faculdades ‘sensíveis’ é muito necessário e até imprescindível para que o homem se encontre nas condições mínimas da verdadeira escuta.

Quando, por exemplo, o homem não é senhor de tudo o que a memória lhe quer apresentar, é óbvio que a dissipação o impeça de estar livre, e portanto está alheio a qualquer escuta. Toda esta luta é progressiva, tudo é lento, mas, se houver a perseverança na luta de todos os dias, luta essa que deverá ser sempre decidida mas suave, chegará um dia em que tudo se simplificará.

Santa Teresa ao falar do recolhimento ativo, diz que a alma que se esforça todos os dias, ao fim de alguns meses – talvez perto de um ano – verá um grande proveito em si, e que chegará a não ter ‘trabalho’ para se recolher. Esta certeza – que pode oscilar entre mais ou menos tempo – dada por uma doutora da Igreja, Mestra de espirituais, e experimentada praticamente em todas as vias do espírito, deve ser um grande incentivo para nós.

b)Silêncio com as criaturas e Silencio do coração: Este silêncio é um dos mais necessários para aquele que procura “ver” a Deus, i.e., possuir o coração puro requerido para a pura contemplação. É também chamado o silêncio do amor vigilante, que consiste em reagir, vigorosa e energicamente, contra todo o afeto puramente natural que se manifesta em pensamentos, conversas “interiores”, desejos demasiado ardentes, porque demasiado sensíveis, ‘à flor da pele’, como se costuma dizer, para se dirigir, com um movimento de fé e amor, para Deus. O homem deve vigiar o desejo de satisfações contrárias à Vontade de Deus : prazeres, gostos, preferências, simpatias absorventes, etc , .tudo aquilo que dificulta a adesão total ao Senhor É necessário fazer calar estes desejos que dividem o coração humano através do exercício do ‘amor virginal’, desinteressado e disposto a renunciar a esses ‘objetos’ ‘amados’, i.e., desejados, sacrificando as próprias exigências egoístas pelo bem alheio, através do dom generoso de si mesmo.

Ao nível sobrenatural, há que mortificar a devoção demasiado ardente, sensível, simplificar a sua relação com Deus (não multiplicar as orações, as penitências) e aceitar em paz as purificações que se manifestam de mil e uma maneiras no dia-a-dia, e tudo aquilo que, na Providência de Deus, Ele permite para nos livrar cada vez mais dos nossos apegos e maus hábitos a fim de estarmos livres para o Amor.

Necessitamos, pois, para avançar nesta linha, de um grande espírito de fé para lermos tudo o que nos dói, tudo o que nos alegra ou entristece, à LUZ purificadora de Deus.

C) Silêncio do espírito e do juízo: A vida contemplativa do homem, quando chega a um certo nível de perfeição, pode resumir-se num só ato: abrir-se e escutar Deus, para receber a irradiação da Sua Luz, que só será possível se a inteligência permanecer livre e vazia de raciocínios, “razões” e juízos naturais, de investigações intelectuais e de intenções alheias a Deus . Este silêncio de que nos fala São João da Cruz na Noite do Espírito significa o despojamento total do intelecto, é o "nescivi" (nada sei) de São Paulo e o “apagar qualquer outra luz” de Isabel da Trindade. Antes que Deus intervenha poderosamente com as suas purificações, o homem tem que fazer todo o possível por se purificar ativamente, só assim é que ELE poderá agir, numa alma que se dispôs com o seu próprio trabalho

SILÊNCIO DIVINO:

Este silêncio é o silêncio mais precioso que o homem pode alcançar; ele brota de uma vontade já totalmente decidida a estar sempre unida com Deus, na mais completa abnegação pessoal, é um dom oferecido pelo próprio Deus a todo aquele que se deixou trabalhar pelo seu FOGO (grandes ou pequenas purificações; aquelas descritas por João da Cruz ou aquelas de que o Santo não fala...tudo o que faz parte da nossa vida pode transformar-se em momento privilegiado de purificação =santificação)

O grande teólogo – P. Lacordaire Lagrange, deixou escrito que este silêncio representa o supremo esforço da alma que sai de si mesma, sem saber nem poder já expressar-se. A pessoa, para atingir este nível que lhe é oferecido por Deus, deverá antes ter-se abeirado do último e supremo esforço humano na colaboração com o trabalho de Deus, só depois é que as ‘núpcias’ acontecem...

O silêncio que se vai alastrando a todo o ser da pessoa, é o aliado mais eficaz de Deus! É o próprio Deus que avança na posse da pessoa e nada Lhe fica oculto, nada Lhe passa despercebido. Isto traz sofrimento. É a purificação dos ídolos pessoais, que em ambiente de deserto são postos em evidencia.

 

 

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